quinta-feira, 24 de maio de 2018

Do irmão

A palavra, tênue palavra, instantânea palavra,
Trocada n'instante fugaz, infinitesimal, fátuo
Perene naquilo que sucede, palavra, lavra
E lavrou, feito lei, a infinitude de meu vazio
Na insustentável leveza do ser.

A frase, de pontuais palavras igualmente efêmeras
Evaporou-se ao léu; desvaneceu-se. Fez-se pó
Que embrenhou, veloz, as cavidades cutâneas, a tez
Entranhado que só nos poros d'insensata nostalgia
Da saudade como o todo do instante em que lhe ouvi.

O texto, esse sim, tão pequenino. Imerso em solicitude
Talvez por compor-se de frase tão sutil, tão momentânea
Ou por conter as tais palavras pontuais, ocasionais, ciganas
Quisera eu que fosse assim eterno, feito a eternidade do depois
Do silêncio que o precedeu, o abismo;

O insustentável pesar do não ser...

Não ser, ou não lhe ser. Irmão meu... Irmã... Sois tu.
Na palavra, tênue palavra. Nas infinitas palavras...
No verde que não mais pisou no mundo...
Na tua palavra que deixei assim partir...
Tal como veio, efêmera e tão tua.

Ora, que mais haveria de ocorrer?
As palavras se vão feito a parte e o todo.
No meu ser que é leve feito pluma, sem silhueta,
D'esfumaçadas mãos que a tudo deixa ir.
Deixei-te ir uma vez mais?

Ora, que mais haveria de ocorrer?
Que direito teria de dar-lhe a mão? Abraçar tua palavra ocasional.
Entregar a parte e o todo ao egoísmo insensato. À palavra...
Desejo de cada sistole entregue n'instante em que as li.
Seria presunçoso acreditar nesse desfecho?

As tuas infinitas palavras. Só tuas, minha irmã.
E que na chuva eterna de meu mundo tempestuoso, 'inda sei
Mesmo que por esse mísero instante, mesmo que nesse miserável desfecho de realidade...

Eu te amo.




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Sei que nunca vou lhe passar isso. Na realidade talvez nem devesse passar mesmo, de qualquer forma... Eu sempre fui egoísta e nunca consegui compreender as coisas, ultimamente costumam me dizer que sou uma pessoa fria. Venho pensando que de fato talvez seja verdade... Não sou constante, não sou presente. Na maior parte do tempo quero me afastar de todo mundo. Mesmo das pessoas que me são caras...
É quase sempre uma fase, e a retomada é muitas vezes demorada... Não consigo me abrir com ninguém sobre isso. E quase sempre elas se afastam de mim depois dessas coisas se repetirem indefinidamente...
Acho que nunca contei a sério isso p'rá ninguém... Mas posso dessa vez ser egoísta e conversar contigo na minha cabeça? Lhe dizer a verdade... Feito daquela vez em que me acompanhou por espírito, se lembra?

Mas bem, é melhor eu findar isso aqui... Fred, Boa Noite. Obrigado por ter falado comigo... Mesmo que não fosse sua intenção ou algo assim. Eu não sei, não posso ficar aqui supondo coisas sobre você. Desculpa não lhe responder como eu queria, como eu queria ter a coragem por todos esses anos... Você não precisa me desculpar, ou acreditar em mim nem nada. Eu só precisava lhe dizer isso mesmo... Eu te amo, minha irmã. Ainda posso lhe enxergar assim, né? Eu não sei...

Aos que acabarem lendo esse meu desabafo por aqui, desculpe estar usando esse espaço pra isso... Sei que uma ou duas pessoas lê as coisinhas que coloco aqui, mas eu precisava externar essas coisas de alguma forma.

De qualquer forma, se  vocês chegaram até aqui. Obrigado por lerem meus textos.

domingo, 29 de abril de 2018

Tanto sem verso em meio ao caos.

Ocorreu-me noite adentro, lhe escrever à luz da lua
deitado no escuro, o ventilador a rugir, a girar.
Num escuro que se deita, que se cala, noite nua.
E a dor não ventilada adormece ao luar.

Noite adentro o tique-taque de um relógio que ressoa
Me ressoa o sentimento de seu tique-taquear
O solicito silêncio, minha febre, tua pessoa
Delirante entre os remédios, pra dormir, pra despertar.

Vou sonhando entre os teus versos, novos, que há pouco li.
Acordando entre as palavras deste que ja me esqueci
Nas memórias que não ficam,  feito o suor sobre a tez
Entre as lagrimas que brotam feito doces tons pastéis.

Menestréis silenciosos das cantigas do dormir.
Vão cantando minha loucura, paranoia d'existir
Sussurrando em meus ouvidos as palavras insensatas
O tremor de meu cansaço por conclusões inexatas.

Tão cansado da rotina do meu doce sonho anil.
Pesadelo que pintou a ida do meu mês de abril.
Cogitei escrever sim, mas tanto sem verso estou
Que meu caos neste momento sobre este papel deitou.

Os teus novos versos li, texto unico e profundo.
Hoje leio tua poesia que 'inda embeleza o mundo.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

14 de Novembro

Ora, se assim vieste ao mundo.
Tal feito és, mistérios e silêncios ininterruptos.
Há de teres sido, assim, lá no fundo.
O doce desconhecido, a dúvida, o abrupto segundo.

Segundo em que vieste e logo foste embora;

Ora, e se assim tu nascestes, à beira-mar.
E tal feito o mar és, pra mim, que nada sei.
Das tão profundas e sutis ondas, tuas, a quebrar;
Cheia d'água salina, Marina, flor de novembro, abril tu és.

Este 14 de Novembro é todo teu, como os que foram...
Não pedir-lhe-ei mais que um sorriso, apagado à distância; invisível.
E nem este pedirei-lhe, menina-abril, nem isto!
Ou qualquer sinal de ti que um dia tenha visto...

Ora, menina, salina, menina-do-mar, Marina.
Se tu me leres, quem sabe, em dia anil.
Leias, pois,  lembrança pueril; Assim.
Que já nem sei se é vera ou se é mentira;
Que em abril eu inventei p'rá mim.

Marina; novembro; Marina. Teu nome,
Que feito aquele acalanto qu'um dia conheci.
Como um fragmento de ti, para nós e para helena...
Conflagro-te, assim, nesta poesia,
A nossa história efêmera e pequena.




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Imponência e Impotência

Ao hastear-se a flâmula sombria, esmoreci
Qu'embora ávido estivesse, flanei, fugi, parti de ti
De tua hasteada silhueta, de teus esbugalhados olhos lacrimosos,
De tua imponente estatueta, inebriante em meu temor,
em meus remorsos.

A imponência de minha impotência foi-te antítese
Chorei em meu flanar vagaroso e conflitante
Na incapacidade de dar-te essência, sucessora d'existir
Na vil escuridão de tua ausência, no ser-lhe pouco,
ser-lhe elixir.

Elixir mal concebido, ser placebo, ser fugaz.
Qu'inutilidade toma e faz marido, faz amante, capataz.

Unilateralmente teu, feito lírio,
que a terra pertence, mas dela,
não é senhor.

Imponência e impotência mesclam-se,
enamoram-se, tragam d'um e d'outro;
Imponência e impotência somos todos
em nossos infernos particulares.
Cujos candeeiros inflamam nosso ego
a definhar em seus vis altares.
Cujas silhuetas sombrias de nossos desejos,
Irreais, exibem-se aos milhares.

Amedronta-nos
a imponência, e
a onipotência, de
nossa tamanha
impotência.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O teu nascer

Nascera a lua branco-perolada
Por sobre terra que feito cicuta, é arauto
D'encanto e dor, n'umbela esbranquiçada
E amor, tremor, e tudo, e nada.

Nasceras então num presságio de luz
Arauto singular da pura florescência
Qu'atrás de si, primaveras induz
No mundo-cicuta, adoça, reluz

Vinte e um invernos então transpassaste 
Tragando o incolor, expelindo o castanho
A flor bungavília em tua tez adornaste
Brilhante o sorriso e a voz que bradaste

Sois luz para tantos que encontram teu canto
Sois passaro qu'asas brandiste na noite
Também sois saudades, lembranças, encanto
E então sois Lotário, sois reino, sois pranto

Qu'invernos vindouros lhe tragam risadas
E ao fim de setembro só felicidade
Encantos, cancões,  até cinzentas fadas
E a chuva se vá, nasça o sol nas estradas.

Que os prantos da vida lhe entreguem saber
Que as cores do mundo lhe mostrem amor
Que mil sinfonias lhe encantem cirandas
Sois sempre coruja, castanho rubor.

Valin nostarë!



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Estranho no Lar

As águas d'outono vão descompassadas
N'intempérie turva que brada o seu nome
O estranho a isolar-se na margem do rio
Que no próprio ninho lugar já não tem.

Perdida a poesia, enfadonho é o verso
Lustrosas palavras agora tão vis
O estranho no tempo, nas margens imerso
O cedro perdido em sua própria raiz.

No cotidiano esqueceu-se do tempo
As horas vagueiam nos pés de outrem
O estranho enrustido, esquecido e contido
Que no próprio ninho lugar já não tem.

Tantos sons lá fora, mas dentro o silêncio
Por trás do sorriso é só melancolia
O estranho impotente, ausente, demente
Vivendo-e-vivendo seu dia-após-dia.

Tijolo-a-tijolo escala seu muro
A porta já não lhe convida a entrar
O estranho na noite encara as estrelas
Sentindo-se intruso em seu próprio lar...

E no próprio ninho lugar já não tem.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O leito das lembranças

Deito este espectro em meu lívido papel
Verso fugaz enclausurado na memória
No amaríssimo esquecer deste meu céu
Na nossa inerte tempestade cor de mel
Qual leito deito-lhe as reminiscências
E do papel faço meu bálsamo fiel

Qual naufragar ao longe vejo-as partir
Sem despedidas ou olhares de adeus
Borram a tinta os estilhaços das lembranças
Tal feito a chuva dos vermelhos olhos meus

Tantos amigos tão queridos, esquecidos
Nas mil vielas propagadas pela estrada
Eternizados em mil versos concebidos
Pela saudade nestes foram embebidos

N'abril eu penso em toda tímida manhã
Lembro de ti pelo teu doce conversar
Teu acalanto em nossa canção pagã
Na primavera, n'alegria, no teu mar

Meu tão querido irmão, perdi-te no passado
Sempre a fugir, distante assim nos fiz
Lembras o encanto em todo nosso verde dia?
E tão distante a tua voz que tanto diz

Meu passarinho em verso aqui faço-te último
Mas nunca último foste em meu coração
Jaz nele escuso um lugar que é sempre teu
Que mesmo morte ou tempo não apagarão

Hoje, em essência, escrevo para ti
Do teu castanho ser tanta saudade
A estrela d'alva adormeceu detrás das nuvens
E foi-se a infância encobrida pela idade

Neste meu último quarteto, digo adeus
E feito tom pastel que foi cobalto
Essas reminiscências que abandono
Deitadas no papel, num simples verso incauto.