quinta-feira, 25 de maio de 2017

O leito das lembranças

Deito este espectro em meu lívido papel
Verso fugaz enclausurado na memória
No amaríssimo esquecer deste meu céu
Na nossa inerte tempestade cor de mel
Qual leito deito-lhe as reminiscências
E do papel faço meu bálsamo fiel

Qual naufragar ao longe vejo-as partir
Sem despedidas ou olhares de adeus
Borram a tinta os estilhaços das lembranças
Tal feito a chuva dos vermelhos olhos meus

Tantos amigos tão queridos, esquecidos
Nas mil vielas propagadas pela estrada
Eternizados em mil versos concebidos
Pela saudade nestes foram embebidos

N'abril eu penso em toda tímida manhã
Lembro de ti pelo teu doce conversar
Teu acalanto em nossa canção pagã
Na primavera, n'alegria, no teu mar

Meu tão querido irmão, perdi-te no passado
Sempre a fugir, distante assim nos fiz
Lembras o encanto em todo nosso verde dia?
E tão distante a tua voz que tanto diz

Meu passarinho em verso aqui faço-te último
Mas nunca último foste em meu coração
Jaz nele escuso um lugar que é sempre teu
Que mesmo morte ou tempo não apagarão

Hoje, em essência, escrevo para ti
Do teu castanho ser tanta saudade
A estrela d'alva adormeceu detrás das nuvens
E foi-se a infância encobrida pela idade

Neste meu último quarteto, digo adeus
E feito tom pastel que foi cobalto
Essas reminiscências que abandono
Deitadas no papel, num simples verso incauto.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

CRÍTICA: MR. NOBODY (SR. NINGUÉM)



FICHA TÉCNICA:

Sinopse:
Em um futuro não muito distante, Nemo Nobody tem 118 anos de idade e é o último mortal a conviver com as pessoas imortais. Durante esse período, ele relembra os seus anos reais e imaginários de casamento.

Basta a exibição das primeiras cenas de Mr Nobody para tornar-se perceptível que este não se trata de um filme comum. Sua pequena introdução descrevendo o fenômeno da "superstição do pombo" estabelece um importante paralelo inserido de forma coesa no cerne da narrativa: até que ponto nossas ações e escolhas interferem nos acontecimentos que permeiam o fluxo de nossa existência? Estamos de fato concebendo nosso futuro através do famigerado "livre-arbítrio", ou tal qual o pombo supersticioso, simplesmente estabelecemos relações causais entre nós e o que nos rodeia? Até que ponto nossas escolhas hão de interferir na nossa felicidade futura?

Esses questionamentos recebem um tratamento inventivo e audacioso sob a luz da concepção de nosso personagem central: Nemo Nobody, "o homem que não existe". Preso em seu inconstante fluxo de memórias desconexas, sua mente confusa e perturbada pela incapacidade de se estabelecer num único ponto de alguma linha temporal produz uma torrente de passagens fantásticas pelas bilhões de realidades alternativas vividas por Nemo. O roteiro estabelece com perfeição as conexões entre pontos e realidades na vida de Nemo, e mesmo apresentando um mar de psicodelia na concepção dessas variações, o filme é quase sempre lógico e verossímil. O tratamento filosófico e científico percorre o filme com uma naturalidade muito consistente, jamais tornando-se demasiado manipulativo ou cientificista. O roteiro entrega as ferramentas necessárias pro espectador destrinchá-lo ao longo de sua narrativa, nunca pressupondo burrice em seu público, ele é instigante e em momento algum fornece mais que o necessário. O bom espectador de Ficção Cientifica certamente ficará deslumbrado com a possibilidade de explorar as conexões temporais e discussões de uma maneira pessoal, mas jamais excessivamente subjetiva.

A direção do filme é muito consistente no que tange a transições e enquadramentos, sempre muito suaves e bem posicionados. Existe uma cena envolvendo uma espelho que deixará um espectador mais minucioso com uma pulga atrás da orelha quanto a sua concepção. A fotografia é uma explosão de criatividade, tanto nas passagens psicodélicas quanto nas mais realistas. A paleta de cores é diferente em pequenos detalhes nas realidades mais próximas, e em aspectos gigantescos nas realidades mais discrepantes, estabelecendo muito bem a tonalidade de cada núcleo narrativo.

A trilha sonora faz um show a parte com seus dois temas centrais, carregados de significado e  sempre bem posicionados dentro do filme, mas senti falta de um trabalho um pouco mais variado em certos momentos. Não chega a ser um grande problema, já que o próprio filme é carregado de momentos que se assemelham por pequenos detalhes.

O elenco está maravilhosamente bem escalado, a troca de atores durante as transições de tempo convence muito bem enquanto infância, adolescência e vida adulta de cada personagem. Jared Leto aqui entrega uma atuação minuciosa, cheia de trejeitos próprios de cada uma de suas facetas. Destaque absoluto para a realidade futurística, em que o trabalho corporal e vocal do ator é inacreditável. A menos favorecida pelo roteiro é a Linh Dan Pham (Jean) que tem muito pouco tempo de tela para desenvolver sua personagem além do unidimensional, não chega ser incomodo, mas seria interessante e eu talvez sacrificaria de bom grado uma ou outra passagem de realidades alternativas pra assistir um pouco mais dessa personagem em cena.

A montagem e edição do filme é outro ponto que merece ser citado, toda construção dinâmica entre as realidades é muito bem estruturada, utilizando muito bem os objetos da mise-en-scene para fazer a junção entre duas realidades distintas. (Logo no começo do filme isso é notório: Num momento Nemo esta vendo um acidente na TV, no momento seguinte está no lugar do acidente) é uma edição fluida e inteligente.

Quanto a outros problemas, há dois momentos no filme que me causaram um ligeiro desconforto por possuírem um tom um tanto quanto xenofóbico, mas não chegam a ser realmente relevantes e por isso não diminuem a obra. Existe também uma das realidades destoando um bocado do tom pré-estabelecido no filme, enquanto ele segue em todos os outros pontos de progressão com uma lógica perfeitamente compreensível, nessa realidade você é simplesmente incapaz de enxergar uma cadeia de eventos que possa resultar nela (em verdade, sequer consegue compreender se ela é de fato um futuro alternativo ou apenas uma história fictícia dentro do filme). Poderíamos sacrificá-la de bom grado para ter mais alguns minutos de narrativas mais interessantes.



Mr. Nobody não é um filme perfeito, tem uma ou outra quebra de tom meio drástica, uma trilha sonora que em momentos torna-se excessivamente repetitiva e um ou outro personagem que poderia ter sido mais desenvolvido. É, porém, excelente no que se propõe, trazendo na pauta uma importante discussão sobre a vida, nossas escolhas e suas consequências. É possivelmente o melhor tratamento audiovisual d'A Teoria do Caos e do Efeito Borboleta que já tive o prazer de assistir.


NOTA: 9.5

sábado, 1 de abril de 2017

Chuva Vítrea

Tua gotícula esfalece à brisa mundana,
Inócua em sua inocência, esquece-a, abandona-a
A rolar por sobre a folha esmeraldina
Faz morrer a fantasia, a elimina.

E aberta está a caixa de pandora,
De seus males todos jaz esmaecida.
Sua trava enferrujada jaz sozinha,
Jaz aberta, jaz vazia, jaz mesquinha.

A incontingente filha da poesia,
Feito a prosa tão confusa, tão soturna
Tão culpada, tão difusa, tão intrusa...

Que do verso então dormente está sozinha.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Alma Fátua

Debruçada sobre o mundo encontro a fútil criatura,
Qu’inexpugnável flama ampara rente ao peito,
Cuja sístole dormente enternece a estrutura,
E o colo tão diáfano não constitui leito;
Encarando-me n’espelho em suas pupilas carmesim,
Nas cascatas as lembranças que de falsas são tão belas,
Feito vísceras cozidas sob o aroma do alecrim,
Feito o amargo da colônia em que perfumas as janelas.
Faz enamorada a dor, imersa em seu delírio.
E da flâmula o ardor, e do perfume o lírio;
Do recíproco o amor, do descaso o seu martírio;
É amante da presença e rival do contragosto,
Na tormenta da existência, n’ópera de teu desgosto;
Vê n’inferno a quintessência d’amor teu já exaurido,
É de tua alma amásio e de teu olhar marido.

Fito a mim em meu espelho e já não me reconheço,
Se antes fui poeta, amante, amor teu e até amigo
Só me encontro criatura, sem afago, sem abrigo.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Sempre Abril

Soergo faustosas aquelas lembranças
Difusas e imersas num fluxo do tempo
Escondes a ti em tua própria morada
 Menina Abril, já não te lembras?
Nossas mil palavras em plena alvorada?

Perco-te, encontro-te, deslizes da pena
Reminiscências pueris me conflagram papel
Este tão tênue fio nutre a luz de teu nome
Menina Abril, não vês?
A tristeza num fruto que o tempo consome

Espero-te, aguardo-te, segundo a segundo
Apago da pena os deslizes de ti, lhe apago
As tuas nuances, trejeitos guardados.
Menina Abril, sempre tu, eviterna
Na falsa certeza de passos andados

Tua imagem no tempo é sussurro distante
Tuas lisas madeixas tão sempre insensatas
Tal feito luar é a flor de tua tez
Menina Abril, onde estás?
Por sendas d’um mundo vagais através.
  
No escuro evaporam-se as reminiscências
A flor de tua tez evocada se esvai
Há então de apagar-se em teus olhos negror
Menina Abril, assim vai-te embora
E perene resides no encanto em furor

Menina Abril, te lembras?
Menina Abril, te fostes?
Menina Abril, Retornas?

Menina Abril... Viestes do mar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Na noite sob D'alva

A brisa tão suave e passageira, minha flor
Tão devagar orvalho assim dissipa, leva embora
Tal rio, que não volta, apenas vai
Feito chuva, que do céu, tão logo cai

Na noite uma só luz, somente D'alva
Nem Órion em seu grande resplendor, sumiu
Nem tu, nem tua tez, nem teu olhar
Nem flor, nem cor, nem jeito de falar

Há pouco 'inda um reflexo de ti
No espelho estilhaçado que encontrei
Teus versos no papel já tanto li
Que a cor de sua poesia recordei

Me sento sob a brisa, sob a noite
Me lembro o tom azul, já tão fugaz
Orvalho, estrelas, mundo tão silente
Cobalto, abril, antigo e evanescente

Cascatas molham árido deserto, o embebem
A aurora daqui pouco vai surgir, lá longe
O verso, a letra, poesia que não surge
O tempo, passo a passo, agora urge

O tudo que era eterno já não é
Já tão distante segue um só caminho
Na contra-mão da estrada, em marcha ré
Na noite, no silêncio, no sozinho.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

いのちの名前 (O nome da vida)

Evoco-te n’imagem d’espelho embaçado, este meu reflexo em ti
N’Epifania efêmera estilhaço-me a face
P’rá ver-lhe momentânea nestas centelhas despedaçadas
P’rá ver-lhe num lampejo das estrelas apagadas
Tanto e tanto persegues o senhor das crônicas
Na crônica tristeza das horas desprezadas

Pianíssimos teus trejeitos de senhora, teu reflexo em mim
No dissonante mergulho me faz embriagado
P’rá ver-lhe assim harmônica n’acetoso mel
P’rá ver-lhe deflagrar destinos no papel
Apagas tanto e tanto termos já ditados
Que se criam ditados d’erros tão lembrados

Deflagra-me n’encanto a tua melodia, nossa comunhão apoteótica
O teu crescendo encanto em meu altar soergues
P’rá ver-lhe o sacerdote hastear-lhe a face
P’rá ver-lhe o sacrifício-sacerdote-enlace
Rabiscas tanto e tanto assim com tua pena
Que a pena por outrem realça o teu impasse

O Fortíssimo executas com tamanho ardor, teu inflamado reflexo de nós
Em nostalgia encaro nosso velho espelho
P’rá ver-lhe agora nova nos teus estilhaços

P’rá ver-lhe iluminar-me em mil estardalhaços
Decresce tanto e tanto n’staccato a melopéia
Que cessas todo encanto e morre a epopéia.