terça-feira, 14 de novembro de 2017

14 de Novembro

Ora, se assim vieste ao mundo.
Tal feito és, mistérios e silêncios ininterruptos.
Há de teres sido, assim, lá no fundo.
O doce desconhecido, a dúvida, o abrupto segundo.

Segundo em que vieste e logo foste embora;

Ora, e se assim tu nascestes, à beira-mar.
E tal feito o mar és, pra mim, que nada sei.
Das tão profundas e sutis ondas, tuas, a quebrar;
Cheia d'água salina, Marina, flor de novembro, abril tu és.

Este 14 de Novembro é todo teu, como os que foram...
Não pedir-lhe-ei mais que um sorriso, apagado à distância; invisível.
E nem este pedirei-lhe, menina-abril, nem isto!
Ou qualquer sinal de ti que um dia tenha visto...

Ora, menina, salina, menina-do-mar, Marina.
Se tu me leres, quem sabe, em dia anil.
Leias, pois,  lembrança pueril; Assim.
Que já nem sei se é vera ou se é mentira;
Que em abril eu inventei p'rá mim.

Marina; novembro; Marina. Teu nome,
Que feito aquele acalanto qu'um dia conheci.
Como um fragmento de ti, para nós e para helena...
Conflagro-te, assim, nesta poesia,
A nossa história efêmera e pequena.




quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Imponência e Impotência

Ao hastear-se a flâmula sombria, esmoreci
Qu'embora ávido estivesse, flanei, fugi, parti de ti
De tua hasteada silhueta, de teus esbugalhados olhos lacrimosos,
De tua imponente estatueta, inebriante em meu temor,
em meus remorsos.

A imponência de minha impotência foi-te antítese
Chorei em meu flanar vagaroso e conflitante
Na incapacidade de dar-te essência, sucessora d'existir
Na vil escuridão de tua ausência, no ser-lhe pouco,
ser-lhe elixir.

Elixir mal concebido, ser placebo, ser fugaz.
Qu'inutilidade toma e faz marido, faz amante, capataz.

Unilateralmente teu, feito lírio,
que a terra pertence, mas dela,
não é senhor.

Imponência e impotência mesclam-se,
enamoram-se, tragam d'um e d'outro;
Imponência e impotência somos todos
em nossos infernos particulares.
Cujos candeeiros inflamam nosso ego
a definhar em seus vis altares.
Cujas silhuetas sombrias de nossos desejos,
Irreais, exibem-se aos milhares.

Amedronta-nos
a imponência, e
a onipotência, de
nossa tamanha
impotência.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O teu nascer

Nascera a lua branco-perolada
Por sobre terra que feito cicuta, é arauto
D'encanto e dor, n'umbela esbranquiçada
E amor, tremor, e tudo, e nada.

Nasceras então num presságio de luz
Arauto singular da pura florescência
Qu'atrás de si, primaveras induz
No mundo-cicuta, adoça, reluz

Vinte e um invernos então transpassaste 
Tragando o incolor, expelindo o castanho
A flor bungavília em tua tez adornaste
Brilhante o sorriso e a voz que bradaste

Sois luz para tantos que encontram teu canto
Sois passaro qu'asas brandiste na noite
Também sois saudades, lembranças, encanto
E então sois Lotário, sois reino, sois pranto

Qu'invernos vindouros lhe tragam risadas
E ao fim de setembro só felicidade
Encantos, cancões,  até cinzentas fadas
E a chuva se vá, nasça o sol nas estradas.

Que os prantos da vida lhe entreguem saber
Que as cores do mundo lhe mostrem amor
Que mil sinfonias lhe encantem cirandas
Sois sempre coruja, castanho rubor.

Valin nostarë!



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Estranho no Lar

As águas d'outono vão descompassadas
N'intempérie turva que brada o seu nome
O estranho a isolar-se na margem do rio
Que no próprio ninho lugar já não tem.

Perdida a poesia, enfadonho é o verso
Lustrosas palavras agora tão vis
O estranho no tempo, nas margens imerso
O cedro perdido em sua própria raiz.

No cotidiano esqueceu-se do tempo
As horas vagueiam nos pés de outrem
O estranho enrustido, esquecido e contido
Que no próprio ninho lugar já não tem.

Tantos sons lá fora, mas dentro o silêncio
Por trás do sorriso é só melancolia
O estranho impotente, ausente, demente
Vivendo-e-vivendo seu dia-após-dia.

Tijolo-a-tijolo escala seu muro
A porta já não lhe convida a entrar
O estranho na noite encara as estrelas
Sentindo-se intruso em seu próprio lar...

E no próprio ninho lugar já não tem.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O leito das lembranças

Deito este espectro em meu lívido papel
Verso fugaz enclausurado na memória
No amaríssimo esquecer deste meu céu
Na nossa inerte tempestade cor de mel
Qual leito deito-lhe as reminiscências
E do papel faço meu bálsamo fiel

Qual naufragar ao longe vejo-as partir
Sem despedidas ou olhares de adeus
Borram a tinta os estilhaços das lembranças
Tal feito a chuva dos vermelhos olhos meus

Tantos amigos tão queridos, esquecidos
Nas mil vielas propagadas pela estrada
Eternizados em mil versos concebidos
Pela saudade nestes foram embebidos

N'abril eu penso em toda tímida manhã
Lembro de ti pelo teu doce conversar
Teu acalanto em nossa canção pagã
Na primavera, n'alegria, no teu mar

Meu tão querido irmão, perdi-te no passado
Sempre a fugir, distante assim nos fiz
Lembras o encanto em todo nosso verde dia?
E tão distante a tua voz que tanto diz

Meu passarinho em verso aqui faço-te último
Mas nunca último foste em meu coração
Jaz nele escuso um lugar que é sempre teu
Que mesmo morte ou tempo não apagarão

Hoje, em essência, escrevo para ti
Do teu castanho ser tanta saudade
A estrela d'alva adormeceu detrás das nuvens
E foi-se a infância encobrida pela idade

Neste meu último quarteto, digo adeus
E feito tom pastel que foi cobalto
Essas reminiscências que abandono
Deitadas no papel, num simples verso incauto.

sábado, 1 de abril de 2017

Chuva Vítrea

Tua gotícula esfalece à brisa mundana,
Inócua em sua inocência, esquece-a, abandona-a
A rolar por sobre a folha esmeraldina
Faz morrer a fantasia, a elimina.

E aberta está a caixa de pandora,
De seus males todos jaz esmaecida.
Sua trava enferrujada jaz sozinha,
Jaz aberta, jaz vazia, jaz mesquinha.

A incontingente filha da poesia,
Feito a prosa tão confusa, tão soturna
Tão culpada, tão difusa, tão intrusa...

Que do verso então dormente está sozinha.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Alma Fátua

Debruçada sobre o mundo encontro a fútil criatura,
Qu’inexpugnável flama ampara rente ao peito,
Cuja sístole dormente enternece a estrutura,
E o colo tão diáfano não constitui leito;
Encarando-me n’espelho em suas pupilas carmesim,
Nas cascatas as lembranças que de falsas são tão belas,
Feito vísceras cozidas sob o aroma do alecrim,
Feito o amargo da colônia em que perfumas as janelas.
Faz enamorada a dor, imersa em seu delírio.
E da flâmula o ardor, e do perfume o lírio;
Do recíproco o amor, do descaso o seu martírio;
É amante da presença e rival do contragosto,
Na tormenta da existência, n’ópera de teu desgosto;
Vê n’inferno a quintessência d’amor teu já exaurido,
É de tua alma amásio e de teu olhar marido.

Fito a mim em meu espelho e já não me reconheço,
Se antes fui poeta, amante, amor teu e até amigo
Só me encontro criatura, sem afago, sem abrigo.