segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Estranho no Lar

As águas d'outono vão descompassadas
N'intempérie turva que brada o seu nome
O estranho a isolar-se na margem do rio
Que no próprio ninho lugar já não tem.

Perdida a poesia, enfadonho é o verso
Lustrosas palavras agora tão vis
O estranho no tempo, nas margens imerso
O cedro perdido em sua própria raiz.

No cotidiano esqueceu-se do tempo
As horas vagueiam nos pés de outrem
O estranho enrustido, esquecido e contido
Que no próprio ninho lugar já não tem.

Tantos sons lá fora, mas dentro o silêncio
Por trás do sorriso é só melancolia
O estranho impotente, ausente, demente
Vivendo-e-vivendo seu dia-após-dia.

Tijolo-a-tijolo escala seu muro
A porta já não lhe convida a entrar
O estranho na noite encara as estrelas
Sentindo-se intruso em seu próprio lar...

E no próprio ninho lugar já não tem.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O leito das lembranças

Deito este espectro em meu lívido papel
Verso fugaz enclausurado na memória
No amaríssimo esquecer deste meu céu
Na nossa inerte tempestade cor de mel
Qual leito deito-lhe as reminiscências
E do papel faço meu bálsamo fiel

Qual naufragar ao longe vejo-as partir
Sem despedidas ou olhares de adeus
Borram a tinta os estilhaços das lembranças
Tal feito a chuva dos vermelhos olhos meus

Tantos amigos tão queridos, esquecidos
Nas mil vielas propagadas pela estrada
Eternizados em mil versos concebidos
Pela saudade nestes foram embebidos

N'abril eu penso em toda tímida manhã
Lembro de ti pelo teu doce conversar
Teu acalanto em nossa canção pagã
Na primavera, n'alegria, no teu mar

Meu tão querido irmão, perdi-te no passado
Sempre a fugir, distante assim nos fiz
Lembras o encanto em todo nosso verde dia?
E tão distante a tua voz que tanto diz

Meu passarinho em verso aqui faço-te último
Mas nunca último foste em meu coração
Jaz nele escuso um lugar que é sempre teu
Que mesmo morte ou tempo não apagarão

Hoje, em essência, escrevo para ti
Do teu castanho ser tanta saudade
A estrela d'alva adormeceu detrás das nuvens
E foi-se a infância encobrida pela idade

Neste meu último quarteto, digo adeus
E feito tom pastel que foi cobalto
Essas reminiscências que abandono
Deitadas no papel, num simples verso incauto.

sábado, 1 de abril de 2017

Chuva Vítrea

Tua gotícula esfalece à brisa mundana,
Inócua em sua inocência, esquece-a, abandona-a
A rolar por sobre a folha esmeraldina
Faz morrer a fantasia, a elimina.

E aberta está a caixa de pandora,
De seus males todos jaz esmaecida.
Sua trava enferrujada jaz sozinha,
Jaz aberta, jaz vazia, jaz mesquinha.

A incontingente filha da poesia,
Feito a prosa tão confusa, tão soturna
Tão culpada, tão difusa, tão intrusa...

Que do verso então dormente está sozinha.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Alma Fátua

Debruçada sobre o mundo encontro a fútil criatura,
Qu’inexpugnável flama ampara rente ao peito,
Cuja sístole dormente enternece a estrutura,
E o colo tão diáfano não constitui leito;
Encarando-me n’espelho em suas pupilas carmesim,
Nas cascatas as lembranças que de falsas são tão belas,
Feito vísceras cozidas sob o aroma do alecrim,
Feito o amargo da colônia em que perfumas as janelas.
Faz enamorada a dor, imersa em seu delírio.
E da flâmula o ardor, e do perfume o lírio;
Do recíproco o amor, do descaso o seu martírio;
É amante da presença e rival do contragosto,
Na tormenta da existência, n’ópera de teu desgosto;
Vê n’inferno a quintessência d’amor teu já exaurido,
É de tua alma amásio e de teu olhar marido.

Fito a mim em meu espelho e já não me reconheço,
Se antes fui poeta, amante, amor teu e até amigo
Só me encontro criatura, sem afago, sem abrigo.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Sempre Abril

Soergo faustosas aquelas lembranças
Difusas e imersas num fluxo do tempo
Escondes a ti em tua própria morada
 Menina Abril, já não te lembras?
Nossas mil palavras em plena alvorada?

Perco-te, encontro-te, deslizes da pena
Reminiscências pueris me conflagram papel
Este tão tênue fio nutre a luz de teu nome
Menina Abril, não vês?
A tristeza num fruto que o tempo consome

Espero-te, aguardo-te, segundo a segundo
Apago da pena os deslizes de ti, lhe apago
As tuas nuances, trejeitos guardados.
Menina Abril, sempre tu, eviterna
Na falsa certeza de passos andados

Tua imagem no tempo é sussurro distante
Tuas lisas madeixas tão sempre insensatas
Tal feito luar é a flor de tua tez
Menina Abril, onde estás?
Por sendas d’um mundo vagais através.
  
No escuro evaporam-se as reminiscências
A flor de tua tez evocada se esvai
Há então de apagar-se em teus olhos negror
Menina Abril, assim vai-te embora
E perene resides no encanto em furor

Menina Abril, te lembras?
Menina Abril, te fostes?
Menina Abril, Retornas?

Menina Abril... Viestes do mar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Na noite sob D'alva

A brisa tão suave e passageira, minha flor
Tão devagar orvalho assim dissipa, leva embora
Tal rio, que não volta, apenas vai
Feito chuva, que do céu, tão logo cai

Na noite uma só luz, somente D'alva
Nem Órion em seu grande resplendor, sumiu
Nem tu, nem tua tez, nem teu olhar
Nem flor, nem cor, nem jeito de falar

Há pouco 'inda um reflexo de ti
No espelho estilhaçado que encontrei
Teus versos no papel já tanto li
Que a cor de sua poesia recordei

Me sento sob a brisa, sob a noite
Me lembro o tom azul, já tão fugaz
Orvalho, estrelas, mundo tão silente
Cobalto, abril, antigo e evanescente

Cascatas molham árido deserto, o embebem
A aurora daqui pouco vai surgir, lá longe
O verso, a letra, poesia que não surge
O tempo, passo a passo, agora urge

O tudo que era eterno já não é
Já tão distante segue um só caminho
Na contra-mão da estrada, em marcha ré
Na noite, no silêncio, no sozinho.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

いのちの名前 (O nome da vida)

Evoco-te n’imagem d’espelho embaçado, este meu reflexo em ti
N’Epifania efêmera estilhaço-me a face
P’rá ver-lhe momentânea nestas centelhas despedaçadas
P’rá ver-lhe num lampejo das estrelas apagadas
Tanto e tanto persegues o senhor das crônicas
Na crônica tristeza das horas desprezadas

Pianíssimos teus trejeitos de senhora, teu reflexo em mim
No dissonante mergulho me faz embriagado
P’rá ver-lhe assim harmônica n’acetoso mel
P’rá ver-lhe deflagrar destinos no papel
Apagas tanto e tanto termos já ditados
Que se criam ditados d’erros tão lembrados

Deflagra-me n’encanto a tua melodia, nossa comunhão apoteótica
O teu crescendo encanto em meu altar soergues
P’rá ver-lhe o sacerdote hastear-lhe a face
P’rá ver-lhe o sacrifício-sacerdote-enlace
Rabiscas tanto e tanto assim com tua pena
Que a pena por outrem realça o teu impasse

O Fortíssimo executas com tamanho ardor, teu inflamado reflexo de nós
Em nostalgia encaro nosso velho espelho
P’rá ver-lhe agora nova nos teus estilhaços

P’rá ver-lhe iluminar-me em mil estardalhaços
Decresce tanto e tanto n’staccato a melopéia
Que cessas todo encanto e morre a epopéia.